Primeiro de Abril

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta, no próprio dia, que será publicada no capítulo de uma retrospectiva do período em que estou escrevendo esse livro. Segue a carta relativa ao mês de março de 2021:

Foi no dia 1º de abril de 2020 que comecei a publicar minhas cartas mensais. Será que alguém teria a mínima condição de imaginar que estaríamos onde estamos hoje, um ano depois? Lembram-se que em março de 2020 estávamos adiando os eventos presenciais? Falávamos em dois ou três meses… alguns mais pessimistas adiavam para o segundo semestre de 2020. Quem acreditaria que um ano depois estaríamos muuuito pior. Há um ano, em março, passamos a primeira quinzena acreditando que não havia vítimas fatais. No mês de março de 2020 tivemos notificados 201 óbitos no mês inteiro. Enquanto apenas hoje (quinta-feira) tivemos 3.769 óbitos notificados, só nas últimas 24 horas!

Nos últimos dois dias tivemos notícias de mais absurdos na política — não dá para se acostumar — e notícias de mais destruição de nossas florestas. Com a pandemia desacelerando a devastação das florestas… o Brasil conseguiu, novamente ficar em primeiro lugar no ranking mundial (segundo dados da plataforma Global Forest Watch do WRI anunciados ontem) aumentando em 25% a destruição das florestas em 2020 em comparação com o ano anterior (que foi absurdamente alto). O Brasil destruiu três vezes mais que o segundo colocado no ranking. O resultado saiu nas principais mídias do mundo todo. Global Forest Watch: https://blog.globalforestwatch.org/data-and-research/global-tree-cover-loss-data-2020

Voltando a carta de abril, de um ano atrás, escrevi que estávamos vivendo sintomas de incontinência virtual e esperava que não piorasse mais. Mal sabia que isso teria múltiplas consequências, se agravando cada vez mais até os dias de hoje.

Nessa carta também apresentei algumas visões do que eu via se desenhando no horizonte para iniciarmos a próxima década, que começou em primeiro de janeiro de 2021. Reli cada uma das visões e as mantenho tal qual foram escritas.

- A medicina vai finalmente evoluir para cuidar prioritariamente da prevenção ao invés das doenças. Vai se tornar amplamente colaborativa e completamente sem fronteiras. Levará em conta ciência, tecnologia e principalmente culturas. Cuidará fundamentalmente do DNA ao estilo de vida, da alimentação ao ar que respiramos, da meditação à movimentação, da autoestima à psicologia.

- A economia não conseguirá manter seu atual modelo estrutural. O jogo já mudou! Quem tentar jogar com as regras antigas logo perceberá que terá que se tornar alguém detestável para si mesmo e para os outros. Poucas pessoas ficam confortáveis nessa posição. O medo e a insegurança com a sobrevivência vão retardar o pleno funcionamento de uma economia com uma cultura de Gift.

- As escolas nunca mais serão as mesmas. Vamos finalmente sair das metodologias do século XIX para entrar nas condizentes com o século XXI. Quem poderia imaginar que os sistemas de aprendizagem iriam dar esse salto quântico através desse artifício? Quem diria que o conhecimento não estaria mais atrelado a memória e sim a sabedoria? A Educação será livre, com janelas sem salas, com notas de músicas, com folhas da natureza e principalmente com muito amor.

- A política dos políticos ainda sobreviverá mais algumas primaveras enquanto houver a crença de que o sistema eleitoral tem alguma coisa a ver com a democracia. A política vai migrar dos políticos para a sociedade civil. E as políticas públicas serão decididas pontualmente através da participação dos interessados devidamente qualificados. Em pouco tempo os políticos serão substituídos por uma nova geração de políticos conectados com a sociedade civil.

- A religião, no geral, terá dificuldades de manter o véu da ignorância como força motriz da maioria de seus seguidores. Apesar da imensa fome por algo que explique o inexplicável, por um sabor de pertencimento, por um alimento para a alma… a busca será mais ouvindo a voz de dentro do que a palavra dos gurus. Você, finalmente, será seu próprio guru!

Esses cinco pontos continuam fazendo parte da minha visão que foram ampliados nesse livro.

Aniversários:

Hoje, 1º de abril, o Psicodrama faz 100 anos! Joseph Levy Moreno, criador da técnica terapêutica do Psicodrama é também pai de muitas ideias e inovações que estão hoje integradas em nosso dia a dia e nem nos damos conta. A terapia de grupo foi uma de suas contribuições mais significativas a todas as terapias. A Socionomia, ou estudo das relações é a mãe das redes sociais de hoje. Pois é… Facebook, Instagram, Google, Twitter, Whatsapp tem tudo a ver com o Moreno. Procurem por Sociodinâmica, Sociometria e Sociatria. Dizem que em 1912 num encontro com Freud, lhe disse que enquanto ele (Freud) analisava os sonhos, ele (Moreno) dava coragem para sonhar e novo.

A Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap) editou um vídeo para celebrar os 100 anos do Psicodrama: https://youtu.be/LAFFreYwHHY

Em março saiu o livro Psicodrama Virtual, com vários autores em que fui convidado para escrever um capítulo. O Psicodrama em si é virtual e por isso acredito, pelo que vivenciei nesse último ano, no que o JL Moreno dizia: que o Psicodrama no século XXI será a terapia que a Psicanálise foi para o século XX. Sou um apaixonado pelo Psicodrama!

Hoje, 1º de abril, é o aniversário do segundo Golpe Militar do Brasil realizado em 1964. Apesar de ainda existirem pessoas acreditando na versão editada, João Goulart ainda estava no poder na manhã do dia primeiro. O golpe (ou revolução) só acontece quando o governante é deposto. Não importa se houve alguma movimentação no dia anterior, na semana anterior ou mesmo no ano anterior com a gravação do John Kennedy insinuando uma intervenção militar no Brasil. A questão de inventar uma mentira para escapar do dia da mentira é de uma ironia histórica. Mudar uma data histórica para acomodar qualquer que seja a narrativa é um gesto, no mínimo, desonesto. Não podemos mudar a data da queda do muro de Berlim, das Torres Gêmeas ou de qualquer outro acontecimento histórico.

Precisamos também entender que há militares e militares. Dizer simplesmente “militares” seria o equivalente a dizer “Cristãos”. Há Cristãos Evangélicos, Católicos, Protestantes… e muitos outros. Dentro dos Evangélicos tem também outras divisões. Portanto temos que ter cuidado para não generalizarmos os militares… com o perdão do trocadilho.

Encerro esse texto desejando que possamos ultrapassar as fronteiras que nos limitam. Que possamos ampliar a consciência para perceber o quanto não sabemos… e que tudo bem!

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Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade

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Alan Dubner

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