Primeiro de Dezembro

Alan Dubner
5 min readDec 2, 2020

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Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta que será publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta desse mês:

Estamos entrando no último mês da segunda década do século XXI. Onde estamos? Sabemos quem somos individualmente e ou coletivamente? Temos alguma ideia de como será o caminho civilizatório da terceira década deste século, que começa em janeiro? O que aprendemos em 2020? O que mudou? Quais são as verdades que adquirimos, quais foram ressignificadas e quais foram confirmadas?

Todas essas verdades são a nossa necessidade de ter explicações para tudo. Por que precisamos de explicações? Por que acreditamos nas explicações? Será que escolhemos em quais explicações acreditar ou somos levados a acreditar? Por que acreditamos em apenas uma das explicações?

Conforme prometido em minha carta do mês passado, vou trazer alguns exemplos para cutucar nossas verdades.

Antes de começar quero repetir o que o Arthur Schopenhauer disse:

“Toda verdade passa por três estágios.
No primeiro, ela é ridicularizada.
No segundo, é rejeitada com violência.
No terceiro, é aceita como evidente por si própria”

Para não entrar em questões como a de que a Terra é plana ou redonda, nem se comer animais faz bem ou mal, vamos escolher um tema atual que não sai da pauta geral da humanidade deste ano: a pandemia! Vamos questionar… apenas questionar, nossas atuais verdades sobre a pandemia. Apenas um exercício que pode nos exemplificar como tudo é uma questão de percepção.

Verdade 1 — A transmissão do vírus veio pelo pangolim ou foi produzido em laboratório?

A tese inicial foi que o vírus SARSCoV2, foi transmitido por um pangolim num mercado na cidade de Wuhan (China) que vendem animais de todo tipo para serem consumidos. Algumas variações dessa explicação ocorreram se referindo a outros animais, mais preponderantemente ao morcego. Outra tese paralela apareceu dizendo que o vírus acidentalmente escapou de um laboratório em Wuhan. Essa tese ficou taxada como uma teoria da conspiração. O que elevou essa tese a uma explicação possível foi o depoimento da médica virologista chinesa, Li-Meng Yan, com declarações plausíveis. Nem vou trazer a questão de quando a disseminação começou… Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 2 — Cloroquina funciona ou faz mal?

Nessa questão aparecem até motivações políticas. Se você torce para um time acredita numa coisa e se torce para o outro acredita em outra. Chega a ser engraçado. A cloroquina foi recomendada bem no início pelo infectologista francês Didier Raoult, da Universidade Aix-Marseille. Algum tempo depois ele foi fortemente atacado dizendo que a não só a cloroquina (ou hidroxicloroquina) não funcionava como tinha altos riscos para o paciente. Durante os últimos 9 meses esse assunto foi de um lado para outro com decisões opostas em cada país, em cada hospital e em cada médico. As principais questões são se funciona, se o médico tem liberdade para prescrevê-lo, se seria uma campanha de difamação bancada pela ganância dos laboratórios e se as políticas públicas de saúde deveriam incluí-lo nas opções de tratamento. Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 3 — As máscaras para o cidadão saudável são úteis ou inúteis?

No início da proliferação do vírus a recomendação era só usar a máscara se você estivesse com sintomas da doença. Depois foi migrando para o uso geral em locais fechados e com o tempo foi se estabelecendo regras das mais variadas. O uso, em alguns lugares, passou a ser obrigatório mesmo ao ar livre e principalmente para quem corria ou andava de bicicleta. Para complicar um pouco mais a questão das máscaras, as pesquisas mostraram as diferenças de proteção de cada tipo de máscara eram significativas. Mesmo com a obrigatoriedade do uso da máscara muita gente não a usava, será que é uma falta de cidadania e de educação ou é uma ação de ativismo contra a obrigatoriedade? Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 4 — As vacinas, no Brasil, virão no próximo mês ou no segundo semestre de 2021?

Estamos falando das escolhas do Brasil na vacina de Oxford e da chinesa Sinovac. Ou não? Será que dá para incluir a da Moderna e da Pfizer? O que significa vacinar os brasileiros? Começaremos pelos profissionais de saúde? Pelo grupo de risco? Como será o transporte das vacinas? Precisará refrigeração ou algum cuidado mais técnico? Quantas pessoas serão necessárias vacinar para que a gente possa se considerar protegidos? Existe algum risco em tomar essas vacinas por terem sido produzidas em tão pouco tempo? Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 5 — As escolas devem abrir ou fechar?

Os médicos estão atordoados em tentar responder essa questão. Os que estudaram profundamente as pesquisas e acompanharam casos relacionados às escolas têm opiniões totalmente opostas. Adoraria mostrar duas lives, que assisti, de médicos pediatras bem conceituados com visões completamente diferentes um do outro. Mas o exercício aqui é de emergir as verdades de cada um de vocês que estão lendo esse texto e se perguntarem se a sua verdade pode ser apenas sua percepção da verdade. Nessa verdade sobre a questão de abrir ou fechar as escolas, tem várias nuances como a idade dos alunos, a arquitetura da escola, os cuidados programados pela escola, a escolha dos pais, o risco para os professores, a precariedade do online e assim por diante. Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 6 — Os números de casos e óbitos divulgados estão corretos ou incorretos?

Corretos: Os números são a compilação de cada secretária de saúde municipal, compiladas pelo estado e consolidadas pela união, se tiver um erro ou outro é insignificante dentro dos mais de 5.500 municípios brasileiros.

Incorretos: Como é possível saber quantas pessoas foram infectadas se não se testa quem não tem sintomas graves? O número de óbitos não leva em consideração um enorme contingente de mortes não notificadas, principalmente entre as pessoas de renda mais baixa e de localidades com restrição de acesso à hospitais.

Corretos: Se os números não fossem corretos, como se explicaria esses nove meses de monitoramento e decisões de gestão pública baseada neles?

Incorretos: Inacreditável que depois de nove meses de comprovação da inutilidade desses números, ainda tenha pessoas acreditando neles.

Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

A ideia aqui é abrir o espaço para que mais percepções possam ser vistas e criar um contexto para que possamos olhar para nossas crenças e valores como sendo… apenas NOSSAS crenças e valores! Quando ridicularizamos alguma verdade alheia, ou reagimos mais radicalmente contra… cuidado… pode vir a ser a nossa verdade amanhã!

Só como saideira vou deixar uma questão a mais. Essa pandemia ou pandemônio pode ter sido alimentada por interesses de poder? Sem entrar em teorias da conspiração, conseguimos nos questionar como foi possível parar o mundo dessa maneira? A quem interessaria uma situação dessa? Como se seria possível articular uma coisa dessa magnitude, globalmente? Lembrem-se, é só um exercício para questionar nossas verdades!

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Alan Dubner

Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade