Primeiro de Fevereiro

Fim da Pandemia?

A Dinamarca decretou, a partir de hoje, o fim da pandemia. É o primeiro país da Europa a fazer isso. Apesar dos casos ainda estarem altos e da subvariante BA.2 da Ômicron (mais contagiosa) ser a dominante no país. A primeira-ministra Mette Frederiksen anunciou que o país pretende regressar à vida antes do coronavírus e que a doença já não será mais considerada uma ameaça à sociedade. Eles estão se baseando na constante baixa da necessidade de leitos de UTI e não no aumento da contaminação.

O que significa isso? Luz no fim do túnel? Parece até estranho pensarmos, por exemplo, que as máscaras não serão mais utilizadas no transporte público. O gesto da Dinamarca abre um caminho para os outros países se posicionarem em relação as restrições e as medidas sanitárias. A Espanha está indo na direção de se declarar numa endemia ao invés de pandemia. O Reino Unido também tem feitos esforços nessa direção. Será o começo do fim da pandemia?

No Brasil, apesar do apagão dos números, das dificuldades com testagem e subnotificações nunca estivemos num patamar tão alto de contaminação. Hoje os números divulgados foram de 193.465 casos e 929 óbitos confirmados. A média móvel diária (últimos 7 dias) de hoje é de 186.985 casos e 609 óbitos. Lembrando que os números dizem muito pouco da realidade e que não deveriam ser comparáveis entre os países. Para aqueles que querem olhar mais de perto essa numerologia e não ficarem com a oferta repetitiva das mídias consulte o Worldometer e faça suas interações. outro site que recomendo é o Mapping Covid-19 da John Hopkins

Agora algumas questões importantes que não têm uma resposta única. A variante Ômicron é menos perigosa? Se sim, o quanto é menos perigosa? As vacinas permitem algum tipo de proteção? Se sim, existem proteções diferentes entre as 10 vacinas aprovadas em uso? Alguma das 170 vacinas candidatas em desenvolvimento clínico estão (ou vão) incorporar a nova variante, hoje dominante? O que deve ser feito quando alguém contrair o COVID-19?

Parece que esse ano, no Brasil, além da pandemia teremos o pandemônio das eleições. Alguns comportamentos são similares. As pessoas tendem a acreditar nos números e tomarem decisões baseadas neles. O “quem disse” é sempre mais importante do que “o que é dito”. A ciência é sempre mencionada como a prova de que o argumento está correto. As mentiras sobre si mesmo e os outros são divulgadas por especialistas regiamente pagos. Questionar qualquer coisa do processo o coloca automaticamente como negacionista, não importa o lado ou o conteúdo da questão.

Acreditar no inacreditável é a nossa maior qualidade e, ao mesmo tempo, nosso maior defeito. Albert Einstein já nos dizia de que a imaginação é mais importante que o conhecimento. A percepção cria nossa realidade e nos faz pensar e agir como se estivéssemos todos na mesma realidade. Dizemos que aqueles que pensam e agem de forma diferente estão fora da realidade. Temos uma resistência em sentir que existem outras realidades além da nossa. Para os que acreditam que a Terra é plana, é chocante perceber que uma grande maioria das pessoas não veem o óbvio. Por outro lado, é inconcebível para os que acreditam que a Terra é redonda que exista um grupo que pense diferente. Os dois lados alegam que os outros negam evidências cientificas. Acreditamos porque todos acreditam, todos acreditam porque todos acreditam e por isso, inacreditavelmente, funciona. Vivemos numa realidade virtual criada pela imaginação daqueles que estão em posição cria-las e seguimos andando fingindo que estamos plenamente conscientes da realidade. O que faz a gente acreditar no inacreditável? A fala mais inspiradora para mim, foi proferida pelo Yuval Harari em junho de 2015. Esse vídeo (https://youtu.be/nzj7Wg4DAbs) deveria ser visto e revisto muitas e muitas vezes para que a gente nunca se esqueça de lembrar. Assista! Se já assistiu, assista novamente! Ele diz que a cooperação existe por causa da imaginação. Acreditamos coletivamente em ficções e seguimos as regras culturais dessas histórias que nós mesmos inventamos. Usamos linguagem para criar realidades mais do que para descrever a realidade objetiva.

Quais são os mecanismos que fazem com que a gente continue vivendo e contribuindo para que todas essas ficções permaneçam? É insano, para dizer o mínimo, acreditarmos que mantendo as coisas como estão obteremos resultados diferentes. Einstein já nos dizia isso.

Vamos para as eleições desse ano. Mudou alguma coisa nas últimas décadas? Se não, como podemos esperar que alguma mudança ocorra? As pessoas tendem a acreditar que tudo bem terem cometido um erro com o seu voto, porque na próxima eleição mudam isso. Ou acreditam que a culpa desse resultado é do outro… daquele que o voto elegeu esse candidato, não percebem que foi seu candidato que permitiu que esse foi eleito. Confuso? Pois é, bem confuso mesmo. O sistema eleitoral brasileiro continua a funcionar do mesmo jeito a despeito dos partidos mudarem de nome ou das empresas de pesquisa, também, mudarem de nome. Nada mudou! Nada muda! Desde quando essa ficção existe? Há 2.500 anos atrás já existia e o filósofo grego Sócrates, segundo Platão, já alertava que o sistema de votação em que cada voto vale a mesma coisa nunca funcionaria. Seria preciso capacitar os eleitores para que tivessem habilidade de escolher e aí sim a votação poderia trazer bons resultados. Ele dá como exemplo o navio dos tolos em que os marinheiros acreditam serem capazes de navegar, mas não se entendem e escolhem os mais populares e menos capacitados para capitanearem o navio. O resultado é esse que vemos no mundo todo, com raras exceções. Tanto a gestão da pandemia, como a da governança política é uma ficção que somos obrigados a engolir e a participar.

Todos esses comportamentos humanos já foram amplamente estudados e classificados e diversos experimentos nos ajudam a entender porque somos como somos.

Conformismo — Escolhemos nos comportar como o grupo de comporta. Mesmo que individualmente escolheríamos outro caminho preferimos o conforto de seguir o bando. Salomon Asch conduziu vários experimentos comprovando que as pessoas preferiam ignorar a realidade e darem respostas incorretas para ficarem em conformidade com o grupo. Muitos reportaram que apesar de saberem que as respostas estavam erradas não queriam se sentir ridículos diante do grupo. Outros simplesmente não confiaram em suas próprias opiniões e acreditaram que as respostas do grupo estavam corretas.

Dissonância Cognitiva — Já mencionei isso em outros textos anteriores. O nosso cérebro é desenhado para amenizar e ou anular as percepções quando nossas crenças e valores são confrontados pela realidade. Acreditamos firmemente em alguma coisa, como por exemplo, o carro do vizinho é verde. Quando nos deparamos com o carro azul do vizinho ocorre uma desagradável dissonância cognitiva e nosso cérebro encontra desculpas plausíveis ou não para que o nosso engano seja mitigado ou anulado. Por exemplo, podemos nos dizer que era verde e que foi pintado ou trocado. Podemos apenas amenizar dizendo que estava escuro quando registramos que era verde. Podemos, também, reduzir a importância desse fato para amenizar a dissonância.

Efeito espectador — ou apatia do espectador, é uma teoria da psicológica social que afirma que os indivíduos são menos propensos a oferecer ajuda a uma vítima quando há outras pessoas presentes. Quando estamos falando de fake news e seus sistemas de funcionamento, as pessoas ficam imobilizadas para se contraporem a uma mentira ou injustiça que o fariam imediatamente numa situação individual. Além disso os produtores desses crimes sabem que se colocarem comentários negativos à vitima logo após a publicação haverá uma propensão maior a não contradizerem esses primeiros comentários e atrairá pessoas para incitar o ódio já proferido.

Banalidade do Mal — Conceito originalmente criado por Hannah Arendt em que as pessoas fazem o que fazem sem se darem conta que estão sendo cumplices do resultado de sua colaboração. Esse é talvez um dos maiores problemas dessa crise civilizatória que estamos vivendo. Todos nós, em maior ou menor grau, estamos sendo coniventes de alguma forma com algumas das barbaridades que estão acontecendo em detrimento de nossa humanidade. Stanley Milgram, na década de 1960, realizou uma serie de experimentos controversos sobre os conceitos de obediência e autoridade. Até onde as pessoas iriam obedecendo ordens superiores? Muito influenciado pelas conclusões de Hannah Arendt no julgamento do nazista Eichmann, o psicólogo de Yale produziu um estudo que ficou conhecido como o Experimento de Milgram. Seus experimentos envolviam instruir os participantes do estudo a aplicar choques de alta voltagem a um ator em outra sala, que gritaria e eventualmente ficaria em silêncio à medida que os choques se tornassem mais fortes. Os choques não eram reais, mas os participantes do estudo foram levados a acreditar que eram. Milhões de pessoas que trabalham hoje em organizações que estão claramente ligados a corrupção, fraudes religiosas, danificação socioambiental, insegurança alimentar, desflorestamento, degradação dos recursos hídricos, poluição e tantos outros crimes contra a humanidade, não se sentem causadoras ou cúmplices do estrago que sua colaboração está causando. Sem querer julgar ninguém pelos motivos que os levam a fazer isso, estão sendo coniventes com os resultados. Um livro lançado agora em janeiro, está causando muitas controvérsias. Trata-se do “The Betrayal of Anne Frank” da autora canadense Rosemary Sullivan baseado em seis anos de pesquisa para descobrir quem denunciou aos nazistas o esconderijo da família da menina Anne Frank. As conclusões levaram a indicarem como suspeito, Arnold Van den Bergh que era do conselho judaico em Amsterdã. Essa história apareceu no popular programa americano do 60 minutes. Talvez a gente entre numa era onde a transparência fique cada vez mais emergente e as pessoas comecem a pensar melhor no que estão fazendo e quais as consequências desses seus atos.

Preconceito — O tema é mais amplo e entra no campo da diversidade e todas as suas ramificações. Gostaria apenas de trazer o trabalho da Jane Elliott ensinando as crianças e adultos sobre como se sentem ao serem descriminadas. É muito lindo! Ela começou a fazer isso logo após o assassinato de Martin Luther King onde seus alunos já o tinham escolhido para fazerem um trabalho sobre ele. Ela declara que não podia simplesmente passar a informação que estava rolando na mídia. Sua iniciativa virou um episódio (1985) na TV pública (Frontline — PBS) e depois um documentário imperdível em 1996, Blue Eyed (Olhos Azuis). Segue um link sem boa resolução que encontrei. Tem até um presente, do GNT, que é a fala inicial do Eduardo Giannetti. Acredito que esteja no arquivo do Globo Play em boa resolução. https://youtu.be/In55v3NWHv4

Estou sugerindo um site (em inglês) com uma coleção de experimentos que valem a pena serem vistos e os que mais gostarem pesquisem na internet.

Entre outras de janeiro: O cantor Neil Young, fez um pedido para o Spotify tirar do ar um podcast que ele alegava estar passando informações errôneas sobre a pandemia. Young finalmente disse que não ficaria no Spotify se o podcast de Joe Rogan não fosse banido. O Spotify retirou todas as músicas de Neil Young da plataforma. Outros cantores estão começando a aderir ao boicote. Já aderiram Graham Nash, India Arie, Joni Mitchel, James Blunt e outros. Além disso o Spotify já tinha recebido uma carta assinada por médicos e outros profissionais da área médica com o mesmo pedido. O Spotify paga uma alta quantia para o controverso Joe Rogan ficar exclusivo dessa plataforma. Quais serão os próximos capítulos dessa colisão, dessa coalisão?

Por fim gostaria de complementar uma frase do texto do mês passado onde falei do filme Don’t Look Up (Não Olhe para Cima): É preciso olhar para cima… para baixo, para os lados, para frente e para trás

É preciso olhar para cima… para baixo, para os lados, para frente, para trás e principalmente para DENTRO.

publicado no alandubner.com

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Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade

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Alan Dubner

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