Primeiro de Julho 2025
No início era… a Verdade!
No início a Verdade estava com os oradores (Grécia), depois foi para os livros (Guttemberg), em seguida para as mídias (McLuhan), depois para internet (Negroponte) e finalmente para as nuvens (IA). Lamento informar que a Verdade não existe mais! Ela morreu e foi para o céu. Amém
O céu, para onde a Verdade foi, estava precisando de reforços para entender o que acontece aqui embaixo. Por isso convocaram a Niède Guidon, Sebastião Salgado, José Mujica, e o Papa Francisco para esclarecer, trazer luz à Verdade. Entre outras coisas querem saber como pode os habitantes humanos desse planeta estarem escolhendo líderes tão inacreditavelmente horríveis e porque ainda acreditam que o sistema para os eleger faz bem para a democracia.
- recomendo pularem o próximo parágrafo -
Voltando a Verdade, que descanse em paz, precisamos nos perguntar se ela era apenas uma ilusão passageira que navegava por mares nunca dantes navegados. Se a frase anterior fez algum sentido, você deve estar precisando de ajuda. Verdade! Vamos por partes, adoramos separar as coisas. A palavra ilusão tem origem no latim “illusio”, se refere a enganar, zombar e tem um quê de brincar (lúdico). Fica então, na pergunta, se a Verdade era uma forma de desviar a percepção… de distraí-la. Desviar do que? Acredito que seria mais preciso perguntar: desviar para o que ou para onde? Seria a Verdade apenas a definição de uma percepção escolhida? Portanto a Verdade não existiria em si. Tá complicando! Vamos então para a palavra passageira que se refere a algo impermanente que estaria a bordo de alguma intenção interna ou externa. Significaria que a Verdade, fonte de uma percepção escolhida ou imposta por alguma manipulação cognitiva, estaria de passagem de um lugar para o outro. De onde para onde? Daqui para lá ou de lá para cá? Aqui familiar, conhecido e lá estrangeiro e misterioso… místico. A palavra navegava denuncia o tempo em que a Verdade existia, mas não existe mais. Ela também informa que havia algum tipo de condução na escolha de seu destino. Quanto a mares nunca dantes navegados, a pergunta quer saber se aquele desvio de percepção impermanente foi conduzido por uma nova consciência e possivelmente gerado algum tipo de dissonância cognitiva. Voltando a Verdade, precisamos nos perguntar se ela era apenas uma ilusão passageira que navegava por mares nunca dantes navegados.
- quem não pulou o parágrafo anterior (avisei), respire fundo, vai tomar uma água e espero que volte para o próximo –
Quais são as Pós-Verdades atuais e onde moram?
Vou começar com a inteligência artificial que gera todo tipo de ilusões, sejam involuntárias ou propositadamente enganadoras (deviant).
Inteligência artificial (IA) é um conjunto com dezenas de conceitos diferentes e muitas vezes, bem diferentes. É como dizer “Religiões”, todo mundo sabe que existem centenas e que são diferentes uma das outras. No entanto o conjunto de mitologias existentes recebeu o nome de “religiões”. O mesmo ocorre para o termo IA, trata-se de um conjunto de sistemas computacionais capazes de simular funções cognitivas humanas. Ou seja, uma calculadora tem inteligência artificial. Apesar de resolver cálculos sofisticadíssimos que exigiria alguém muito inteligente, num tempo muito maior, uma calculadora não é inteligente. A maioria das pessoas sabe que uma calculadora não é inteligente, apesar de resolver funções inteligentes.
Atualmente existem três classificações de IA. A primeira é a Inteligência Artificial Limitada (ANI — artificial narrow intelligence), a segunda é a Inteligência Artificial Geral (AGI — artificial general intelligence) e a terceira é a Superinteligência Artificial (ASI — artificial superintelligence).
A ANI (inteligência artificial limitada) é, também, chamada de Inteligência Artificial Fraca ou Estreita (Weak AI). É a única que utilizamos!
A AGI é a mais falada e disputada, mas ainda não existe. Não sabemos quando e se realmente terá condições de existir. A corrida das big techs é para alcançar essa cenoura pendurada num fio preso a uma vara de investimentos. Se vai se tornar viável ou não, pouco importa nesse momento em que a maioria das pessoas veem a AI nessa categoria. Isso não existe! Não está acontecendo em lugar algum. A IA que estamos vivenciando é a IA fraca!
A ASI é um delírio que está apenas na imaginação fértil dos que alucinam e adoram se alimentar de inverdades. É para aqueles que compram propriedades no Metaverso ou em Marte. É a IA que vai superar as inteligências humanas e as máquinas vão, por si só, dominarem o mundo. Por enquanto só dominarão o que forem programados, pelos humanos, para dominarem. Esse tipo de ginastica da imaginação é parecida com a do teletransporte que até hoje mora só na ficção.
Por favor, não passem vergonha ao declarar que o equivalente a uma calculadora é inteligente. Não é!
A ANI tem uma capacidade espantosa de processar dados e gerar linguagem imitando relações cognitivas. Podem servir de forma reativa, respondendo a estímulos questionados; regenerativa, criando conteúdos novos e originais, respondendo a estímulos demandados; como agentes, gerando ações, respondendo a estímulos programados. Tudo isso em formato de captura, reconhecimento, processamento, análise, geração e entrega de texto, áudio, vídeo, imagem em muitas línguas e linguagens. Impossível não se maravilhar com isso.
Inteligência Artificial é um conceito bem antigo que teve seus primeiros passos (com a mão na máquina) com Alan Turing nos anos 1930. Ele também criou (1950) o teste Turing, que existe até hoje, onde se mede a capacidade da máquina simular comportamentos e linguagem humanas. De lá para cá se desenvolveram centenas de máquinas simuladoras. Os chatter robots (chatbot) mais famosas foram o Eliza (1964) , Parry (1972), Jabberwacky (1988), Dr Sbaitso (1992) e os famosíssimos Alice (1995) e Deep Blue (1996). A partir daí começou a geração mais contemporânea como o Siri (2010), Google Now (2012), Cortana (2014), Alexa (2014), ChatGPT (2021), Gemini (2023), Claude (2023), CoPilot (2023), Deepseek (2024) e mais centenas que estão sendo criadas com as principais plataformas.
Quem acha que inteligência artificial é algo novo, engana-se redondamente. Só as máquinas de calcular tem mais de 300 anos.
A desmistificação da ilusão da inteligência artificial é que ela só entende duas coisas: ligado e desligado (0 e 1). Os LLM (Large Language Models) é que providenciam o espantoso diálogo entre nós e a máquina. O IA não pensa, não sente e não conexão com o divino.
O que realmente me preocupa na IA é a questão socioambiental. Pouca gente fala nisso, mas o desastre que estão causando é surreal. Nem vou entrar nisso hoje. Quem quiser pesquise o que, por exemplo, o Elon Musk está fazendo com o Colossus em Memphis (Tennesse).
Outras Pós-Verdade:
Vou deixar de lado a Pandemia (origem, tratamento, isolamento, vacinas e corrupção) e as Eleições que já falei muito em textos anteriores. Nem falarei da reunião de Bonn que definiu as pautas da COP30. Vou escolher encerar o texto com a recente publicação do livro do Dom Phillips, jornalista do The Guardian que junto com o Bruno Pereira foram selvagemente assassinados no Vale do Javari na Amazonia. O livro é uma leitura recomendada para quem quiser, minimamente, entender uma parte do Brasil abandonada e que só veio a tona porque um jornalista Tom Phillips, amigo do DOM, resolveu fazer uma densa reportagem sobre o ocorrido. Além do livro (Como Salvar a Amazônia) que estava quase terminado antes de ser morto, o The Guardian lançou um podcast com a impressionante reportagem. Antes de mais nada vejam a ótima entrevista da Branca Vianna com o Tom Phillips (não confundir com o Dom) no podcast Fio da Meada da Rádio Novelo. Imperdível!
Tom Phillips destrincha o crime que tirou a vida do amigo dele
“Não tem como falar sobre os assassinatos do Bruno e do Dom sem falar daquele momento político.”
Podcast Missing in the Amazon (The Guardian)
Em um dos cantos mais remotos da selva amazônica, um jornalista e um defensor indígena desaparecem sem deixar rastros. Desaparecidos na Amazônia — nossa nova série de podcasts investigativos em seis partes revela o que aconteceu com Dom Phillips e Bruno Pereira. Contado pela primeira vez pelas pessoas mais próximas a eles.
Misto de diário de viagem, investigação jornalística e manifesto, este é o livro póstumo do jornalista que foi brutalmente assassinado na Amazônia.
https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535940534/como-salvar-a-amazonia
