Primeiro de Maio

Estou publicando esse texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar a de primeiro de abril e faço o mesmo nesse primeiro de maio. Essas cartas estão no capitulo de uma retrospectiva. Nesse ano de 2020 escrevo uma carta para cada mês, nas primeiras décadas do século XXI, escrevo uma para cada ano e estou escrevendo uma carta para cada uma das últimas cinco décadas do século XX. Segue a carta:

Hoje primeiro de maio de 2020, um feriado (se é que isso ainda existe). Estou novamente com a sensação de que o tempo se estendeu. Quase não conseguimos lembrar de quem éramos em fevereiro (tão pouco tempo atrás). O mês de abril gerou um encaminhamento para um aparente novo normal. Ou, o que é mais provável, o início da percepção de que o normal não era nada normal.

Nesse mês se ampliaram os sintomas de incontinência virtual e uma crença, inacreditavelmente ingênua, de que as funções do presencial podem ser simplesmente repassadas para o virtual. Vemos isso em larga escala nas escolas, nas terapias e nas reuniões.

Escolas — A maioria das escolas estão com dois graves problemas: o primeiro é que estão evidenciando a falta de know-how nos sistemas de uma verdadeira aprendizagem que aparecem na simples transposição para o virtual sem uma clara declaração que não sabem o que estão fazendo. Tem escolas que já vem percebendo isso há muito tempo (o que é uma coisa boa) e outras que não. Continuam fingindo que ensinam e os alunos continuam fingindo que aprendem. O segundo problema é que os pais vão começar a se questionar sobre a função da escola. Afinal… para que serve mesmo esse alto e longo investimento na escola? Nada que já não tenha passado, em alguma vez, pela cabeça dos pais, mas que rapidamente procuram esquecer essa disrupção. Nesse momento de crise existe uma oportunidade para questionar o atual modelo mental que construiu os sistemas de aprendizagem das escolas. Será as escolas tem essa coragem? Será que os pais tem essa ousadia? Sim, por que os estudantes estão prontos faz tempo!

Terapias — Seria engraçado se não fosse trágico o que estamos vivenciando nesses dois meses de isolamento social. A GRANDE maioria dos terapeutas vem, nesses últimos anos, negando o campo terapêutico virtual. Isso para não ter que dizer que simplesmente ridicularizavam o espaço virtual de terapia. Do dia para noite é tudo bem… funciona… é necessário e principalmente assumem uma certa familiaridade com o que não possuem a menor a ideia de como funciona e o por quê desse espaço. O que provavelmente vai acontecer é que os pacientes vão perder a paciência e migrar para obter resultados mais eficazes com quem levou anos estudando e aprendendo sobre o campo de terapia virtual. Isso vai acontecer naturalmente com o compartilhamento (virtual) de suas experiências e a demanda será muito maior do que a oferta por um bom tempo. Minha sugestão aos terapeutas virtuais iniciantes é que reflitam sobre como estão se sentindo com esse novo formato. Se acham que estão atrapalhados, não estão conseguindo dar o seu melhor, sentem-se inseguros desde lidar com as ferramentas até entender a amplitude dessa nova linguagem e suas possibilidades… fiquem tranquilos, vocês estão numa ótima posição para aprender e apreender nesse novo e maravilhoso mundo virtual. Sejam honestos com seus pacientes e provavelmente lhes ajudarão com lovebacks a caminhar nessa direção. Agora se você acredita que está bem e basicamente domina a técnica e a tecnologia. Tem familiaridade com Facebook, Instagram, Zoom, Doxy, Facetime, Google Meetings, Hangout e sua maestria como terapeuta compensa esse momento temporário… vocês estão com sérios problemas existências. Seus pacientes também! Sugiro que procurem um bom terapeuta urgente! Terapeutas, não estamos numa situação passageira onde tudo voltará ao normal em breve! O novo normal ainda é desconhecido e está sendo construído conforme o caminho vai sendo construído. “Caminhante não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.”

Reuniões — É aqui que a incontinência virtual mais se manifesta. Com a maior das boas intenções, das mais nobres causas está se promovendo uma gigantesca onda de “lives” e encontros virtuais. Em menos de dois meses ninguém aguenta mais passar horas tendo que sorrir (porque está sendo gravado) e fazer perguntas inteligentes no chat. Ninguém aguenta até mesmo o que há pouco tempo atrás cobiçava em participar. Pior é ter que fingir que está naquela reunião que pega muito mal não estar. O problema aqui é de presença e da qualidade dessa presença quando a natureza está mesmo pedindo recolhimento. Somos a natureza, portanto estamos pedindo recolhimento. O que acontece quando você não faz o que o seu corpo/mente/emoção pede? Fica doente! Não é o momento para ficarmos doentes. Não tenho a menor ideia do que sugerir nesse quesito. Estou com o mesmo problema que todos vocês!

Mergulhado por quatro meses em escrever esse livro continuo com a mesma sensação de que esse livro deveria ter saído no início de 2020 e não no início de 2021 como está previsto por enquanto. Ao mesmo tempo está sendo um privilégio escrever sobre a crise civilizatória enquanto ela está gritando mais alto do que nos últimos 20 anos de imensos esforços de conscientização.

Nas primeiras páginas desse livro escrevi, ainda em janeiro, uma brincadeira provocativa:

“Só abra esse livro em caso Emergência!

Em tempos de dificuldades é importante avaliar se a crise é… sinal ou ruído; passageira ou permanente; mudança ou transformação; vida ou morte!”

Ao escrever essa frase achei que poderia causar um certo distanciamento e desconforto, por isso coloquei a frase inicial (Só abra em caso de emergência) para suavizar o tom. Mas olhando hoje ela está bem próxima e pertinente. Suas respostas, quanto a essa crise, precisam ser avaliadas… agora!

Sinal ou Ruído?

Esse conceito de observar o barulho que está acontecendo e saber separar se é um sinal ou apenas um ruído aprendi em 1996 no incrível livro “Só os Paranoicos Sobrevivem” do Andy Grove, fundador e presidente da Intel. Nessa pandemia quais são os sinais e quais os ruídos? No início de janeiro parecia que era algo acontecendo “lá longe”, como centenas de noticias que recebemos diariamente. O que dessa barulheira poderia indicar que era um sinal de que isso tomaria as proporções que tomou? A questão de que uma pandemia vinha vindo com força estava no horizonte com muita força, há pelo menos uns 10 anos. Seria isso suficiente para reconhecer que era um sinal. Pelo menos, para mim não foi. Já no início de fevereiro a história era bem diferente. A China havia feito o lockdown de uma maneira que só uma ditadura conseguiria impor e havia claros indícios de que teria começado bem antes. O volume de pessoas que entra e sai de Wuhan (11 milhões de habitantes) é bem significativa, casos foram confirmados nos EUA, Japão, Tailândia, Taiwan e Coreia do Sul (provavelmente mais países) o que deveria ter dado a indicação clara de era um sinal. Sinal de que poderia ser uma pandemia forte. Eu, assim como muitas pessoas, ainda não havia reconhecido que poderia virar uma pandemia. Só comecei a perceber que era um sinal quando assisti incrédulo aos desdobramentos do confinamento das 3.700 pessoas no navio Diamond Princess no porto de Yokohoma no Japão. Como assim? No dia dois de fevereiro o capitão foi informado que um passageiro que tinha desembarcado oito dias antes em Hong Kong havia contraído o Coronavírus. O navio foi orientado a se dirigir a Baía de Tóquio onde uma equipe de saúde pública bateu a porta de todas as cabines para perguntar se tinham algum sintoma. Dos primeiros 31 testados, 10 estavam infectados. É preciso lembrar que nos primeiros dias de fevereiro o Japão contabilizava apenas 20 casos confirmados e tinham as Olimpíadas programadas para dali a alguns meses. O que fazer? O confinamento que me pareceu um ato extremo e de condenação de parte das 3.711 pessoas entre passageiros e tripulação, foi o que me ascendeu o sinal de alarme.

Como mencionei anteriormente, nesse livro, sobre a onda de Fake News ter nascido no Brasil em 2014 e migrado para o resto do mundo está, seis anos depois, gerando uma enorme dificuldade para separar um sinal de um ruído, o joio do trigo. São tantas desinformações que a única conclusão que podemos chegar é que nossas percepções são tão suscetíveis que compensa tanta gente criar esses delírios ou mentiras propositais — tem gente que acredita -tem muita gente que acredita. Em quais estamos acreditando? Ou seja, como está amplamente descrito no início do livro, nossa verdade é tão volátil quanto a daquele que considero um idiota. Destaco, o que foi para mim, duas coisas boas entre tantas e duas coisas péssimas dentre tantas (os links estão no final):

Boas — encontro com Fritjof Capra e uma entrevista com Charles Eisenstein (duas jóias)

Ruins — ideias do diretor da agência espacial israelense e o filme “Planet of the Humans” (dois lixos)

Em relação a pandemia, o Brasil era para estar numa posição dos mais privilegiados por assistir os desdobramentos com erros (foram muitos) e acertos dos outros países para se preparar melhor. Lamentavelmente não foi o que aconteceu em fevereiro, março e abril. Fomos na contramão do que poderia ter sido. A polarização de 2018 continua forte na população, poucos estão dispostos a ouvir e muito menos a mudar seu modelo mental de pensamento. O mês de maio vai ser o mais difícil até agora e não sabemos de que maneira enfrentaremos os problemas em junho. Enquanto o vírus ocupa 80% da mídia toda, os outros 20% que poderiam ser sobre vivência, são sobre os desgovernos dos desgovernados. Na sexta passada o ministro da justiça se demitiu acusando o presidente de ter cometido varias barbaridades. A mídia ficou focada, ou melhor desfocada, do que deveria ser seu papel como vimos nos capítulos anteriores e esqueceu de dizer que estão invadindo (como nunca) as terras indígenas, que o desmatamento da Amazônia em março foi quase quatro vezes o de março de 2019 que já havia sido gigantesca e tantas outras coisas importantes (boas e ruins) que mereceriam a atenção das pessoas

Passageira ou Permanente?

Será que depois desse acontecimento de proporções mundiais tudo voltará a ser como era antes? Será que terá um período de reconstrução e depois voltará ao normal? Algo como acontece com uma enchente, terremoto ou furacão? Quanto tempo para voltar? Ou será que haverá algo mais permanente? Um novo normal? Quanto tempo levará para uma migração de uma nova configuração sistêmica? Será depois dessa pandemia ou haverá mais crises? Como avaliar isso dentro desse contexto de crise civilizatória que esse livro aporta? Estamos indo em que direção? Quais serão os novos preceitos dessa complexidade? Espero que as reflexões contidas nesse livro tenha lhe dado parâmetros para que tire suas próprias conclusões.

Mudança ou Transformação?

Quando uma crise grave ocorre, o que vemos em seguida é o “como ficou”. Se for uma mudança, pode, desde ter ficado como estava com algumas melhorias reais e ou cosméticas até ter tido mudanças mais significativas apesar de continuar dentro de um mesmo paradigma.

Quando se trata de uma transformação, o todo muda. É o nascimento de uma nova forma de ser e estar. Einstein dizia que nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o criou. Uma mudança é mais do mesmo, uma transformação parte de outro estado de consciência.

Vida ou Morte?

Será que corremos o risco de extinção da humanidade ou apenas dessa civilização? Ou nenhuma das duas? Vou ficar por aqui nesse primeiro de maio.

P.S. Para não dizer que não falei dos trabalhadores, gostaria de falar que a nova economia (também amplamente discutida nesse livro) vai ser implementada muito mais rapidamente do que imaginei. Enquanto ainda tem gente discutindo se protege a saúde ou a economia, como se fossem duas coisas separadas e ou ainda acreditando que esse sistema vai continuar ad infinitum… já tem países alterando seu grau de consciência e planejando mudar as métricas. Chega de economia focada no crescimento do PIB! Criação de uma renda básica universal, defendida pela Yuval Harari e há anos pelo meu professor na FGV, Eduardo Suplicy. Tudo vai mudar na economia apesar do nosso ministro ainda tentar emplacar as ideias da Escola de Chicago dos anos 30 do século passado. O mais irônico é que a própria Escola de Chicago está defendendo a ideia de uma renda básica universal. Seria engraçado se não fosse trágico. Portanto, na minha visão, os trabalhadores vão passar por um momento muito difícil. O mais difícil dos últimos 100 anos. Como e quando sairemos para uma nova economia e quais as consequências ainda são muito incertas. O que me parece de mais animador para os trabalhadores é o encaminhamento para uma economia do Gift (cultura do Gift). Em 2019 isso parecia quase uma utopia e agora está se chegando mais perto. Alemanha e Holanda já estão falando abertamente sobre as transformações no atual sistema econômico. Uma boa notícia no meio de uma crise econômica sem precedentes.

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Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade

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Alan Dubner

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