Primeiro de Março

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta, no próprio dia, que será publicada no capítulo de uma retrospectiva do período em que estou escrevendo esse livro. Segue a carta relativa ao mês de fevereiro 2021:

Reli o texto que escrevi em primeiro de março de 2020. Foi numa outra era. Você consegue se lembrar como e onde você estava em primeiro de março de 2020? Não me refiro a março de 2020 e sim ao dia 1º de março de 2020. Ou seja, antes de ser decretada a pandemia, antes da primeira morte no Brasil, antes de qualquer indício real de que o mundo inteiro iria parar. Ao mesmo tempo, pouquíssimo tempo antes de tudo isso acontecer. Vou reformular a pergunta: Você consegue se lembrar quem você era em primeiro de março de 2020?

Vou reproduzir o início dessa carta que é no mínimo… curiosíssima.

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“Hoje, primeiro de março de 2020

A semana do Carnaval termina hoje e amanhã é quando, pejorativamente, se diz que o Brasil começa a trabalhar. A questão da sustentabilidade nunca esteve tão mal e olha que já esteve inacreditavelmente mal nos últimos 10 anos. O que será necessário para que esse jogo vire no Brasil e nos EUA? O principal é saber que TODOS nós podemos fazer alguma coisa, por menor que seja. Se ficarmos apenas reclamando estaremos sendo cumplices dessa tragédia.

Na carta de fevereiro subestimei o possível impacto do novo Coronavírus no mundo. Não havia casos de mortes fora da China e nem nome o vírus tinha. Mantenho a ideia de que as mídias vêm gerando um pânico que em nada ajudam. Acredito, também, que já estamos num estado de pandemia apesar de não ter sido declarado ainda. Em 27 de janeiro escrevi no WhatsApp respondendo para minha filha (grávida) que perguntava se eu tinha alguma orientação quanto ao novo coronavírus. Respondi:

Todo ano tem algo assim.

Eu ainda não estou nem um pouco preocupado. Se isso mudar te aviso.

Um dia um deles (vírus) vai ser uma pandemia. Não acho que será esse. De qualquer maneira a melhor coisa a fazer é ficar fisicamente bem… muito bem! Dormir bem, não “comprar” situações de stress, tomar meio limão por dia e umas 20 a 30 gotas de própolis por dia. O grande problema do coronavírus, ao contrário dos outros, é que ele é contagioso quando ainda não saíram os sintomas… ou seja duas semanas antes dos sintomas aparecerem. Se acontecer (acho improvável) de conhecer alguém que conhece alguém infectado precisa ficar longe do networking (rede de relacionamentos) dessas pessoas e os cuidados da saúde serem de uma pessoa paranoica por, pelo menos um mês depois que soube.

No mesmo dia 27 de janeiro, só lembrando que 99% dos 2.800 casos estavam na China e que os EUA tinham apenas 5 casos (reportados), nenhum em Nova York e todos de pessoas que vieram de Wuhan/China, minha filha perguntou se eu achava que era suave ela ir para Nova York.

Por enquanto sim. Se o negócio se espalhar de uma forma perigosa deve rolar de março para abril. Os números estão subindo dessa maneira assustadora, mas é que acabaram de identificar o vírus e os casos estão emergindo (ficando visíveis). Acredito que será contido. De qualquer maneira VOCÊ deve viajar de máscara. Menos pelo risco desse vírus e mais pelo risco dos outros 50 que estão sendo espalhados diariamente. Nenhum perigoso em si, mas vários tem indicação de antibióticos e outras medicações desaconselháveis para minha neta.

Vale a pena passar o desconforto ou vergonha. Não é um custo alto a pagar pela prevenção. Declare que você não está doente, mas está grávida e não quer pegar uma gripe ou virose. Ordens do seu médico! Aliás fale com ele. Deve estar muito mais bem informado do que eu.

Poucos dias depois, no dia 3 de fevereiro onde um dos infectados nos EUA estava recebendo alta do hospital. As mortes tinham crescido de 83 para 426, sendo que 425 da China (maioria da província de Hubei) e uma nas Filipinas sendo que era um Chines de Wuhan (província de Hubei) de 44 anos que tinha se infectado antes de chegar nas Filipinas. Escrevo recomendando que não faça a viagem, mas não pelo perigo do novo vírus.

Acredito que a mídia está causando esse pânico. Só se fala nisso. Para os governos é ótimo desviar a atenção do Brexit, da ameaça nuclear, do impeachment, dos descalabros no Brasil, do Bibi, do sarampo, das mudanças climáticas e de tantas outras coisas realmente importantes. Continuo achando que se houver perigo será a partir de abril. Continuo achando que pelo contágio ter que ser direto (gotículas quando fala ou tocar coisas que receberam essas gotículas) é muito fácil se proteger nesse estágio da doença. Álcool gel muitas vezes. Prestar atenção para não levar as mãos a boca. Enfim acho que não há risco real. PORÉM… acho que há risco de pegar um resfriado ou uma virose. PORÉM… como está esse pânico no ar, qualquer sintoma vai gerar um medo no grupo e no entorno.

Acredito que com esse nível de medo vocês não deveriam ir. A razão é psicológica e não por um perigo real. Mas é uma razão válida!

Você talvez passe por um stress desnecessário se alguém pegar um resfriado.

Minha humilde opinião é que vocês não deveriam ir.

O que preocupa são as declarações e as possíveis medidas que tomarão os governantes dos EUA e do Brasil, que atualmente estão fazendo pouco caso do assunto.

Embarco nessa quarta para o México (Durango) para participar do World Sustainable Development Forum (WSDF 2020) que além da importância do evento que segue na direção da implementação do acordo de Paris e das ODS, deverá homenagear o organizador e importante ambientalista Rajendra Kumar Pachauri. Muitos encontros e projetos estão sendo costurados desde a Cúpula do Clima em setembro passado em Nova York. Tenho esperança! Esperança do verbo esperançar!

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…” Paulo Freire

O mês de fevereiro foi particularmente….”

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Voltando ao primeiro de março de 2021, fico especialmente emocionado de reler a carta que escrevi para esse livro porque revela a minha completa falta de percepção da dimensão do que vinha vindo e ao mesmo tempo revela as pedras que deixei no caminho até aqui. Foi só no mês seguinte (abril) que passei a publicar (sem divulgar) essas pedras em forma de palavras e ideias que me acompanham nesse caminho que estou compartilhando.

No dia 11 de fevereiro celebrei os 30 anos de encontro com a minha cara-metade. Com certeza a coisa mais importante que aconteceu na minha vida. Agradeço a muita coisa dessa vida que foi muito generosa comigo, encontrar a Deborah foi uma iluminação que gerou e gera o viver a vida. Viver a Vida em versão original! Esse é também o título do livro que conta a nossa história e que nesse mês ganhou um formato digital. Fiquei na dúvida de escrever a palavra “coisa”, existem preconceitos com ela. Olhando rapidamente no Ecosia (a versão ecológica do Google que sempre uso) descobri o quanto ela é versátil e tem muuuuitos significados. Ela pode ser substantivo, adjetivo, advérbio e até verbo. O significado que mais encontrei foi: “Tudo o que existe ou que pode ter existência”. Não é demais? Portanto mantenho que encontrar a Deborah foi a coisa mais importante da minha vida!

Hoje de manhã, assisti ao Davos Lab Brasil na TV Folha. Foi muito bom! O que sempre me impressiona são aquelas pessoas que ficam no chat jogando palavras de ódio. Elas entram para isso! O que faz alguém entrar num evento que não aprecia e ficar falando mal de tudo e de todos? Com tanta coisa importante para fazer o que faz alguém perder tempo e energia com isso? Vamos excluir as pessoas que se submetem (banalidade do mal) a receber dinheiro para fazer atos destrutivos e aos robôs programados para isso. Ainda resta uma quantidade enorme de pessoas que covardemente, em seu anonimato, insistem em disseminar vibrações negativas. Existem pessoas que preferem torcer para que o time do outro perca do que o seu ganhe. Estranho, né? Vota num outro candidato para que o que não gosta perca. Sim, parece surreal, mas é a realidade! Uma pessoa escolhe um candidato de sua preferência, mas não vota nele porque acredita que deve votar no candidato que as pesquisas mostram que tem mais chance contra um do qual é contra. Com isso, sempre ganha um candidato que não é o da sua preferência! Como pode uma coisa dessas ser boa para a democracia? Por que as pessoas, na sua maioria, escolhem ser do contra? Como elas fazem para se justificarem consigo mesmas? A resposta é reduzindo a dissonância cognitiva, através de artifícios imaginários (histórias). Essa é uma das abordagens deliciosas que apresento nesse livro.

No mês passado deixei uma palavra no ar: Percepção! Acredito que ela seja a essência do que é esse livro. A nossa realidade — nossa mesmo — é moldada pelas percepções do que acreditamos.

Hoje comecei um curso sobre “Perspectivas”. O curso é baseado nas forças de caráter da Psicologia Positiva criada por Martin Seligman. A Perspectiva é uma força de caráter da virtude da Sabedoria. Aprendi hoje a definição que é “Ser capaz de oferecer conselhos sábios aos outros; ter maneiras de ver o mundo que façam sentido para si e outras pessoas.”

Ggostaria de deixar um link para um vídeo do Yuval Harari falando (em inglês) para jovens de uma escola multicultural no Japão. Tenho tido o privilégio, por conta desses momentos da pandemia, de ouvir uma conversa dele toda semana. https://youtu.be/9drNVSuyp0w

O que me preocupa mais nesse momento da pandemia são os médicos e os profissionais de saúde da linha de frente. Eles já passaram do ponto de “não retorno” para o Burnout, estresse e outras enfermidades. Temos que olhar sistemicamente para cuidar dos cuidadores porque se continuarmos nesse ritmo, além da tragédia individual desses profissionais teremos uma falta desses heróis para atender a demanda.

Que a força esteja com vocês!

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Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade

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Alan Dubner

Alan Dubner

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