Primeiro de Novembro 2023

Alan Dubner
9 min readNov 2, 2023

De que lado você está?

Você é a favor do certo ou do errado?

Você defende o bem ou o mal?

Você escolhe o verdadeiro ou o falso?

Você prefere o bom ou o ruim?

De que lado você está?

Estamos diariamente respondendo essas questões. Elas são apresentadas de outras maneiras, com outras palavras, coloridas com emoções, manchadas pelos pré-conceitos e nos contam estórias que formam nossas crenças. Nosso acreditar! Um acreditar que o lado que escolhemos é o certo, o bem, o verdadeiro e o bom. Portanto o outro lado (de uma pessoa diferente de nós) é o errado, o mal, o falso e o ruim. De cara parece óbvio que essa percepção está, no mínimo, equivocada! Se essa equação faz algum sentido seria importante ampliar a visão e olhar sistemicamente. Ver essa complexidade tridimensionalmente, historicamente, espiritualmente, sustentavelmente, criticamente, generosamente ou seja… simplesmente com amor! Portanto se você é refém desse sistema de polarização, onde você pertence a um lado e não suporta o outro lado, liberte-se enquanto pode! Não existe apenas um lado, existe o todo.

“A crença não é meramente uma ideia que a mente possui, é uma ideia que possui a mente.” Robert Oxton Bolt

No dia 7 de outubro eu estava num retiro nas montanhas de Aiuruoca em Minas Gerais. Cheguei na quinta feira no fim da tarde e na sexta de manhã, 6 de outubro, comecei no ritual com um jejum que me levaria rumo ao desconhecido. Me sentia estrangeiro ao que viria a ser essa jornada, confiante do que me levara até lá e principalmente num estado de aceitação ao que me esperava. Me desconectei do mundo e me conectei comigo mesmo. Gesto simples e ao mesmo tempo complexo diante dos hábitos. Me entreguei, me integrei, me vi vendo, me escutei ouvindo, fui… e voltei na segunda-feira com a bagagem mais leve, com um presente em forma de sabedoria. O ônibus da Cometa que me levou de volta a São Paulo não sabia que eu não sabia o que estava acontecendo no mundo. Foi tão difícil assimilar o que os outros estavam vivendo desde sábado, 7 de outubro. Me senti como se estivesse retornando ao planeta depois de meses longe de tudo e de todos. Não reconhecia mais o meu entorno que havia deixado há apenas alguns dias, tudo parecia mudado. Levei semanas para perceber que, de alguma maneira, fui poupado do choque inicial. Assim como no 11 de setembro de 2001, dia em que o mundo mudou para sempre e vivi cada agonizante instante desse novo formato, o 7 de outubro alterou, mais uma vez, o rumo do mundo. E eu, felizmente para mim, não estava conectado com o mundo. Não consegui sintonizar diretamente com o sofrimento daquela tragédia e isso me fez ver, de uma forma inédita, o risco em que o mundo está prestes a vivenciar. Normalmente sinto as dores do mundo como se fossem mais minhas do que realmente são e isso dificulta um olhar menos polarizado — nós e eles. São muitos elementos para formar a complexidade do que está acontecendo no mundo e o que faz as pessoas reagirem como estão reagindo. A nossa forma de ver as coisas são apenas a nossa forma de ver as coisas. A questão principal é como lidar com nossas dissonâncias cognitivas. Ou seja, acreditávamos numa coisa onde evidências nos mostra que não era bem isso. O que fazemos? Cada um lida da sua maneira e a maioria prefere ignorar que há essa dissonância.

Mas afinal, qual a minha posição em relação ao ataque do Hamas e os 26 dias de ações decorrentes dele? Me posiciono sabendo que estou longe de ter a visão da complexidade que o tema requer. Declaro que é apenas meu ponto de vista dentro de uma pequena noção que tenho de todos os elementos envolvidos no assunto.

O Hamas, e não os Palestinos, promoveram em Israel, no dia 7 de outubro, um ataque terrorista de proporções absurdas sobre qualquer ponto de vista. Foi uma violência gigantesca e acredito que ninguém, minimamente saudável, consiga acreditar que não tenham sido atos de barbaridades desumanas. Acredito que tenha sido uma ação suicida onde, os líderes do Hamas, sabem que serão dizimados como foi com o terror impetrado pelo ISIS (Daesh). A ação teve o objetivo, bem-sucedido por enquanto, de acabar com os encaminhamentos de paz no Oriente Médio, diante da eminência de um acordo de Israel com a Arabia Saudita. A retaliação de Israel, provavelmente planejada e antecipada pelo Hamas é o principal ponto de preocupação pelo futuro imediato do mundo que pode desencadear uma guerra nuclear. Estamos a beira disso. O nome que o Hamas deu a operação deixa evidente sua intenção: al-Aqsa Tufan, al-Aqsa se refere a um conflito em abril de 2022 a uma mesquita em Jerusalém e Tufan significa inundação, provável referência ao dilúvio bíblico que limparia o mundo do pecado quase exterminando a humanidade. Isto posto entro na parte mais sensível da questão. Antes gostaria de dizer que há uma tremenda confusão de quem é quem e quais são as vertentes. Misturam tudo com todos e não conseguem entender as diferenças e sobreposições entre judeus, israelenses, sionistas, árabes, palestinos, muçulmanos, islamistas, Hamas, Hezbollah, Benjamin (Bibi) Netanyahu e nem sabem o nome do presidente de Israel. Israel tem qualidades impressionantes e defeitos, também, impressionantes. Pessoalmente, não entendo como deixaram alguém (Netanyahu) tão prejudicial a Israel, aos judeus no mundo todo e aos palestinos governar, como primeiro-ministro, por tanto tempo. Só agora, esse ano, depois de tantos descalabros parte de Israel acordou para expulsá-lo e mesmo assim, continua lá. Essa é a tragédia dos tempos que estamos vivendo com tantos “loucos” no poder. Putin, Jong, al-Assad, Meloni, Modi, Jinping, Erdogan, Trump, Bolsonaro, Netanyahu, Duterte, Orbán, possivelmente Milei e muitos outros. Para amplificar as tragédias da guerra as informações falsas predominam na mídia. Qualquer informação deveria ser vista com MUITA desconfiança. Um exemplo significativamente destruidor que gerou uma guinada na opinião pública mundial, além de ataques pelo mundo foi a falsa informação de que Israel havia bombardeado e destruído o hospital (Al-Ahli), em Gaza matando 500 pessoas e ferindo muito mais no dia 17 de outubro. Alguns dias depois, análises independentes perceberam que o hospital da Igreja Anglicana, não tinha sido destruído e que uma explosão ocorreu no estacionamento do hospital queimando alguns carros. O resultado é que não se tratava de um ataque de Israel, e provavelmente, uma munição de menor poder de impacto que veio de Gaza. Até agora não há qualquer possibilidade de confirmar o número de feridos e ou mortos. Ou seja, a propagação dessa fake news causou um impacto mundial imediato e a revelação de que era falsa teve pouca visibilidade. Assim caminha a humanidade para mais um passo para maior crise civilizatória dos nossos tempos. Será esse o destino da nossa civilização? Quero também mencionar a carta dos estudantes de Harvard assinada pelo Comitê de Solidariedade a Palestina e coassinada por 33 grupos de estudantes e publicada no dia 8 de outubro de 2023 afirmando, logo na primeira frase, que “responsabilizam inteiramente o regime israelense por toda a violência em curso”. A redigiram no próprio sábado da selvageria desumana. A reação a esse gesto foi muito impactante e levantou muitas questões, entre elas a liberdade de expressão versus a incitação ao terrorismo. O que aconteceu de lá para cá, vale a pena pesquisar para se ter uma ideia do quanto uma ação aparentemente política se transforma num pesadelo de grandes proporções para todos os envolvidos. Por último quero me endereçar à aqueles que ficaram revoltados com a omissão de grande parte das pessoas do seu entorno. Entendo bem essa dor. Não a senti dessa vez porque acredito que é melhor não se manifestar quando não se tem ideia do que está acontecendo. Assim evita ficar replicando as milhares de fake news que poluíram as mídias sociais dos últimos 26 dias. Porém sinto essa dor quando vejo um silenciamento em relação às minhas crenças e valores de que precisamos atuar urgentemente para que meus netos, os filhos e netos deles tenham alguma qualidade de vida. Me dói ver a omissão daqueles que não se solidarizam contra o genocídio dos guardiões das nossas florestas. Me dói saber que a temperatura dos oceanos passou do ponto de não retorno porque houve uma omissão ruidosa daqueles que não quiseram mudar seus hábitos alimentares e continuaram, por exemplo, comendo sushi de atum como se nada estivesse acontecendo. Me dói reconhecer que mesmo entre os ambientalistas, o consumo de proteína animal continua a fazer parte do dia a dia, talvez a maior de suas dissonâncias cognitivas. Me dói sentir a minha própria dissonância em relação ao consumo de plástico. Sinto vergonha de mim mesmo! Portanto me solidarizo com aqueles que sentiram a dor da omissão dos outros em relação às suas crenças e valores — ao mesmo tempo os convido a refletir sobre se há espaço para mais alguma coisa além de acreditarem que estão do lado certo, do lado do bem, da verdade e do bom.

As falas do Yuval Harari e do Thomas Friedman me parecem as mais próximas do que acredito. Separei algumas entrevistas que recomendo:

Israel-Hamas War: Piers Morgan vs Yuval Noah Harari (26/10/2023)

Tom Friedman on Israel’s ‘Morally Impossible Situation’ (20/10/2023)

Yuval Noah Harari on the war in the Middle East — Japanese TV interview (19/10/2023)

Só lembrando que a invasão da Rússia na Ucrânia fez hoje 616 dias!

Efemérides

Primeiro de Novembro 2022

Existe uma longa jornada de sabedoria em busca da “verdade” para aqueles que ousam trilhar esse caminho. A jornada começa na aurora da ignorância, passa por milhares de saberes e repousa no ocaso do não precisar mais saber.

O que acontece é que quanto mais sabemos mais percebemos que há muito mais a saber.

Enquanto acreditarmos que existem separações entre esquerda e direita estaremos sujeitos a ilusão ótica de que significam alguma coisa. Nossa mente se abre a necessidade de rotular e cria modelos mentais com definições próprias mais difíceis de serem dissolvidas ou ressignificadas. Com isso somos reféns de crenças e valores adquiridas naturalmente e artificialmente. As adquiridas artificialmente são bem mais numerosas e são fruto, em geral, de manipulações sofisticadas. O conhecimento para fabricar essas manipulações estão cada vez mais em domínio público e ao alcance de um simples algoritmo. Aqueles que acreditam que estão imunes a essas manipulações são os que mais facilmente são controlados por elas. Estamos adormecidos e entorpecidos por essa envolvente vibração que nos leva a não viver a vida. Não viver a vida? Como assim? Pense no que você faz no seu dia a dia, pense no que fez nos últimos meses, nos últimos anos… Pare por alguns momentos a leitura desse texto para refletir sobre a diferença entre “Viver a Vida” e “Levar a Vida”.

Primeiro de Novembro 2021

Hoje é Dia de Todos os Santos, acredito que vamos precisar muito deles além de outras entidades para apoiar as ações de regeneração diante dessa crise civilizatória.

Ontem começou a cúpula da COP26 e hoje tivemos uma abertura absolutamente emocionante e gerando, em mim, muita esperança… esperança do verbo esperançar.

O ponto alto foi a fala do David Attenborough, 95 anos, que convocou a todos para uma recuperação maravilhosa das mudanças climáticas. O mais querido e conhecido ativista ambiental do planeta discursou para uma audiência de líderes mundiais — incluindo Joe Biden, Angela Merkel e Boris Johnson — dizendo que deveria ser possível trabalhar juntos para salvar a humanidade. Cada frase sua foi de grande impacto. Destaco três delas:

“Em minha vida, testemunhei um declínio terrível. Na sua, você poderia — e deveria — testemunhar uma recuperação maravilhosa.”

“Hoje, aqueles que menos fizeram para causar este problema estão sendo os mais atingidos — em última análise, todos nós sentiremos os impactos, alguns dos quais agora são inevitáveis.”

“As pessoas que vivem agora, que são a geração futura, olharão para esta conferência e considerarão uma coisa que esse número parou de aumentar e começou a cair como resultado das decisões tomadas aqui?”

O filme “Earth to COP” foi eficaz em seu objetivo de levar consciência aos participantes e a audiência mundial.

A nossa ativista indígena Txai Suruí, também, discursou na abertura da COP26 desta manhã (no Brasil). Ela é uma jovem ativista de 24 anos e mora no estado de Rondônia, Brasil. Ela é do povo Paiter Suruí e fundadora do Movimento da Juventude Indígena em Rondônia.

Primeiro de Novembro 2020

O mês de outubro reforçou ainda mais a ideia de que a pandemia está ajudando a ressignificarmos praticamente tudo. Já caminhávamos numa crise civilizatória onde a economia, educação, medicina, ecologia, política e até mesmo a religião estavam (e estão) nos levando para a destruição do que conhecemos hoje como sociedade humana. Então… como fazer? Ninguém sabe as respostas ainda. Um olhar sistêmico e um desprendimento às nossas crenças atuais ajudam muito. Entre essas crenças estão os nossos preconceitos e os pré-conceitos que precisaríamos suspendê-los temporariamente até conseguirmos rever… tudo! A complexidade exige que ao mexer em qualquer ponto, o todo é afetado. Se soubermos — de verdade — que somos interdependentes como humanos, como seres vivos, como habitantes desse planeta será muito, muito mais fácil.

Outubro também reforçou a fraude do sistema educacional, está cada vez mais difícil acreditar nele. O formato de aulas virtuais está fazendo alunos, professores e pais se perguntarem o que querem da Educação, o que querem da Aprendizagem. Na grande maioria das escolas… não está rolando! Não está razoável para ninguém. Chegou a hora de parar com isso e, juntos, com transparência, buscar uma nova educação. Talvez até já tenha passado da hora.

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Alan Dubner

Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade