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Primeiro de Novembro 2025

O Rio de Janeiro continua lindo… o Rio de Janeiro continua sendo

8 min readNov 2, 2025

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O Rio de Janeiro continua lindo… o Rio de Janeiro continua sendo

Há quatro dias, no 28 de outubro, o Rio de Janeiro protagonizou a maior chacina do país e vem causando as mais diversas reações na população. Ficando a maior parte das percepções nas extremidades da polarização. Essas visões estreitas de mundo me lembram o arquétipo do Zé Ninguém no livro do Wilhelm Reich, ‘Escuta Zé Ninguém”. O livro é uma reflexão humana e crítica sobre o ser humano comum, em busca de segurança e proteção, aceita o controle institucional, a delegação de poder ao Estado, ao Partido, à Igreja, e se coloca como patriota ou defensor dos bons costumes, mas ao mesmo tempo se torna covarde e evasivo diante da responsabilidade por suas ações. O Zé Ninguém busca um salvador da pátria, reage com paixão bruta, segue rebanhos, culpa e demoniza os outros.

Talvez fosse bom ter um olhar mais sistêmico, ter dúvidas, fazer perguntas e não chegar a conclusões impossíveis apenas porque a sua tribo disse que é assim. Na tragédia do Rio, tem muitas variáveis e estamos muito longe de compreender o que realmente aconteceu e está acontecendo.

O mais triste de tudo isso é a intenção política! O vazio, momentâneo, na extrema direita fez esse governador armar o show hollywoodiano de horrores para entrar no espaço deixado pelo ex-presidente. Se acotovelando com candidatos a herdeiros do espólio, procura alcançar o pódio, através do medo, da ignorância e da polarização pelo absurdo. Essa manobra política, me pareceu muito evidente. Triste! Muito triste! Já entrou para a história passando a do Carandiru e dos tantos outros esquecidos (ignorados).

As cenas foram milimetricamente arquitetadas para gerar o que está gerando…polarização! Os corpos enfileirados? Os fuzis apreendidos! Os mortos! Os policiais com promoções póstumas! Os posts, a imprensa, as imagens, os vídeos, depoimentos, o detalhamento pormenorizado de tudo sobre o CV.

Triste crise civilizatória!

Darcy Ribeiro disse uma frase, há mais de 40 anos: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios.” Talvez precisássemos conversar sobre que tipo de escolas construir, mas sua visão estava correta quanto a importância da educação para todos os lados da sociedade civil, principalmente por aqueles “Zé Ninguém” que julgam pelo que leem ou veem nas mídias.

Acredito que o cerne dessa tragédia no Rio, dessa transformação que virou o Rio, dessa cidade que já foi maravilhosa… foi a ideia absurda de transferir a capital para Brasília. Jucelino Kubitschek só fez isso para conseguir assumir o governo que por várias vezes tentaram impedi-lo. Achou que seria uma bela distração… e foi! Lúcio Costa ganhou o concurso e em pouco tempo abriram um canteiro de obras no centro do país e foi o começo do fim para o Rio.

Rio de Janeiro, cidade que nasci quando ainda era a capital do Brasil.

A ideia de transferir a capital para o centro geográfico do país, foi MUITO ruim. Isso arRUIMnou uma cidade que era o símbolo tropical de tantas riquezas naturais, artísticas, literárias, estrangeiras, onde a diversidade corria solto e os menos privilegiados tinham a melhor vista da cidade. Muita coisa aconteceu para chegarmos ao Rio de hoje. Voltando mais atrás ainda, a capital foi transferida de Salvador para o Rio por conta do comércio de ouro, talvez, também não tenha sido uma boa ideia, mas já fazem 250 anos.

O Rio sempre foi caórdico (não caótico), em 1807 virou Reino de Portugal, não é o máximo? A vinda da família real trouxe muita coisa boa junto com as quinquilharias (materiais e humanas) da corte. Biblioteca Nacional, primeiro jornal, o maravilhoso Jardim Botânico, Museu Nacional, obras magníficas, Escolas de toda sorte, Artes & Artistas, Teatro, Banco do Brasil… foi um tremendo impulso na cidade. Tudo isso, para dizer que foi lá nos idos 1808 que nasceu a ideia de transferir a capital para o planalto central. Na época até fazia sentido, por conta da segurança. Como a família real portuguesa deixaram os franceses a verem navios, seria de se esperar que Napoleão viesse tirar satisfações. Chegariam pelo litoral (o avião só foi inventado 100 anos depois) e seria uma boa ideia que a corte não se estivesse lá. Fora que faria sentido, ir conquistando geograficamente aquele reino que tinha Portugal como sua colônia. Ficou só na ideia, porém, ao longo desse mesmo século tivemos muitas outras tentativas de mudar a capital do país para a Capitania, Província e depois Estado de Goiás. Deu… em nada! O Rio teve D. Pedro II fazendo maravilhas pela cidade. O telégrafo elétrico ligando por cabo submarino a Europa, o telefone e suas centrais, fotografia e cinema trouxe até os irmãos Lumiére para o Rio, a primeira Ferrovia do Brasil, o bondinho do Corcovado e até a ideia, sugerida por um padre, de erguer um monumento religioso no Corcovado em homenagem à Princesa Isabel (só seria realizado décadas depois). Ele fez coisas extraordinárias e o Rio continuou florescendo. Depois do primeiro golpe militar em 1889 veio a Primeira República (República Velha) que caminhou até o golpe de 1930, iniciando a Era Vargas. Foi em 1931 que foi inaugurada a estátua do Cristo Redentor onde a cabeça e as mãos foram esculpidas na França e trazidas em pedaços para serem remontadas no Corcovado. Foi o bondinho de D. Pedro II que viabilizou levar os materiais para a execução da estátua, símbolo máximo do Brasil. Essa inauguração contou com uma iluminação francesa que foi acesa por rádio em Roma por nada menos, que o próprio Marconi. Em 1945 começa a Quarta República que em 1955, Jucelino Kubitschek, ainda em campanha anuncia que iria construir e transferir a capital do Rio para o Planalto Central. Poderia ser apenas uma promessa de campanha não cumprida pela maioria dos políticos, mas sua situação não estava boa e percebia (corretamente) que não o deixariam governar. Decidiu, em 1956, realizar essa epopeia “50 anos em 5”. Depois de Brasília ser inaugurada começou uma confusão na liderança do Brasil em 1961. Jânio Quadros foi eleito presidente e João Goulart se reelegeu vice (naquela época o voto para presidente e vice eram separados). Seis meses depois de eleito, Jânio condecorou o Che Guevara (por um favor que havia feito) a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, deu ruim! Seis dias depois renunciou! Como nada é por acaso Jango (João Goulart), o vice-presidente, estava na China em visita oficial (União Soviética e China) e acharam por bem não o deixarem assumir a presidência. Apesar de simbolicamente o presidente da Câmara dos Deputados ter assumido interinamente, quem realmente mandava no país era a junta militar, o triunvirato (Exército, Marinha e Aeronáutica). Não ficaram nem 15 dias e não conseguiram impedir a posse de Jango, porém… e sempre tem um porém, apesar de terem empossado o vice, um projeto de emenda constitucional foi aprovado estabelecendo o regime de Parlamentarismo no Brasil. Tudo isso ainda em 1961. E então, para ser o Primeiro-Ministro do Brasil foi escolhido Tancredo Neves, que mais tarde venceria a primeira eleição civil indireta para a presidência da República, mas morreria antes da posse. E, também, foi poupado de saber o que seu neto aprontaria no país. Durante o Parlamentarismo, o gabinete do Tancredo trouxe muitas realizações, entre elas, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (hoje obsoleta), tornou o Acre um estado, instituiu o décimo terceiro salário e outras importantes implementações para a época. Em janeiro de 1963 foi realizado um plebiscito em que se votou a retornar para o regime presidencialista. Jango, que ainda era presidente, volta comandar o país até ser derrubado pelo segundo golpe militar em 1º de abril de 1964. Só lembrando que em outubro de 1962 os EUA pedem o apoio do Brasil durante a crise dos mísseis em Cuba, na qual é recusada. Começam as desconfianças americanas com o Jango, que viriam a desencadear o golpe militar. Começa o período da Ditadura Militar. O Rio de Janeiro, vivia o desmanche de uma estrutura do poder público com 200 anos de idade, o desmanche de uma estrutura que movimentava fortemente os círculos sociais, culturais, econômicos, arquitetônicos, jurídicos e culturais da cidade. Em cima disso uma ditadura que buscava consertar o país. Quem mais sofreu essa violência no corpo e na alma foram os cariocas. A cidade tinha mudado de Distrito Federal para se tornar inquilina do recém estado da Guanabara. Começaram a remover as favelas, alargar a praia de Copacabana, construir o túnel Rebouças, a linha Lilás e tantas outras maquiagens que não mudava o fato de a cidade estar sofrendo uma profunda violência.

Quando Gilberto Gil, foi preso com Caetano quatro dias antes do Réveillon 1968/1969 e só foi solto na Quarta-Feira de Cinzas em 19 de fevereiro, foram convidados a deixarem o país. Gil, inspirado como sempre, compõe a música “Aquele Abraço” e a frase título desse texto: O Rio de Janeiro continua lindo (continua mesmo) O Rio de Janeiro continua sendo (continua mesmo).

Compôs assim que soube de sua partida forçada, gravou em abril e maio, viajou para Londres em 27 de julho, uma semana depois do homem pisar na lua e o disco foi lançado em agosto de 1969.

Nem a Guanabara aguentou continuar nesse estado, ela se tornou o Estado do Rio de Janeiro em 1975. Mais um baque para a cidade do Rio de Janeiro. E apesar das honrosas tentativas de voltar a ser independente, nunca deu certo.

Com o fim da Ditadura e o início do da Nova República, o Rio que já estava há mais de 20 anos sofrendo traumas atrás de traumas, já não era mais aquela cidade maravilhosa da marchinha do carnaval, nem era tão cheia de encantos mil e muito menos o coração do meu Brasil. Apesar dessa música ter se tornado oficialmente o hino da cidade do Rio de Janeiro, e atingir diretamente o coração dos cariocas e o imaginário do resto do Brasil, ela já não representa mais o que vem acontecendo em suas ruas, calçadas, praias e bailes da vida. As milícias, as facções criminosas, aqueles políticos corruptos, aquela parte da segurança pública mal intencionada e outros substratos da sociedade que não desejam o bem-estar dos cidadãos do Rio de Janeiro foram formados pelas escolhas que fizemos (como sociedade) lá atrás. A mudança da capital para o Planalto Central já tem 65 anos e nesse período não conseguimos alterar os rumos de uma Cidade Maravilhosa de um país tropical, abençoada por Deus e bonito por Natureza!

O fundador do Rio de Janeiro, o almirante francês Nicolas Durand de Villegagnon, viu a Natureza exuberante, intocada. O paraíso na terra, com os amigáveis povos originários. Deve ter sido uma visão das mais belas já vistas do Rio de Janeiro que alguns ainda insistem em destruir.

Viva o Rio! Rio Vivo!

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Alan Dubner
Alan Dubner

Written by Alan Dubner

Consultoria em Sistemas de Aprendizagem e Educação para Sustentabilidade