Primeiro de Setembro 2025
Ao Mestre com Carinho
Querido Mestre! Nasce um novo setembro e, pela primeira vez, sem a sua presença física nesse mundo… nessa jornada! Sua presença está em mim e sempre estará, viva e vívida! Apenas oito dias se passaram… conversei, em todos eles, com você. Desde as minhas meditações matinais até um boa noite antes de dormir. No domingo que você partiu preferi ficar no silêncio do meu luto, compartilhado com a Deborah. Só postei uma imagem que denuncia sua ternura, alegria e seu transbordamento de amor com a frase “ao Mestre com carinho”. Nesse domingo, minha mãe (91 anos) veio conhecer seu terceiro bisneto, compartilhei com você nossas andanças pelos laços (clusters) familiares. No dia seguinte, segunda-feira, recebi boas vibrações da minha terapeuta que sabe o quanto você é importante para mim. Não havia tristeza e nem saudades, apenas um sentimento de presença. A sua presença. Na terça-feira fui a um evento (Futuro Vivo) que você ia adorar. Tanto pelas pessoas maravilhosas que encontrei e reencontrei, tanto pelos palestrantes que estão buscando conscientizar uma humanidade adormecida. Johan Rockström, Carlos Nobre, Lourenço Bustani, Gabor Maté, Ailton Krenak, Kaká Werá, Txai Suruí, Denise Fraga e outros, além de Gilberto Gil e Dani Black. Você esteve ao meu lado o dia todo. Na quarta-feira foi a vez de participar de um Hackathon Intergeracional do Age Free World convidado pela Rosa Alegria e o Fabio Betti. Querido Mestre, esse dia foi bem especial, principalmente porque trabalhamos fundo esse tema em nosso último encontro. Esse evento contou com 50 participantes de diferentes gerações (Baby Boomers, Geração X, Millennials e Geração Z). Quinta-feira foi de finalização da programação da Virada Sustentável na Casa das Rosas que será no fim de semana de 19 a 21 de setembro. Na sexta-feira, fomos para Itu (eu e a Deborah) e falamos de como você estava presente em nós e ela sentiu a paz que você deve estar. Sábado de caminhadas internas e externas. No domingo, ontem, ouvi num encontro gerativo de que “não morremos” e ficou claro o quanto você está vivo. Somos seres espirituais, eternos, de luz e amor. Hoje é o dia em que me retiro das atividades cotidianas para escrever um texto e senti que seria um texto sobre nossas conversas diretas e indiretas, presenciais e virtuais, curtas e longas, internas e externas ao longo desses mais de 33 anos juntos.
Lembrei das últimas palavras que ouvi de você no dia 25 de julho, depois de duas horas de um encontro virtual com mais seis terapeutas que te amam, que foi “Viva a Vida!”
Foi um encontro muito especial onde expressamos nossa juventude diante da inacreditável (no sentido de não crer) idade cronológica. Onde agradecemos estar vivendo a vida plenamente.
Você estava radiante com a sua sabedoria, a sapequice de menino e a irreverência de quem conhece muito. O seu humor se fez presente várias vezes, como aquela em que pediu para Beth falar e perguntamos qual Beth (havia duas) e você responde “as duas”, todos gargalharam. Apesar de alguns momentos sentirmos dificuldades em entendermos suas palavras. Sua mensagem foi transmitida e, mais uma vez, tínhamos tido uma sessão transformadora. Nos últimos minutos onde você nos fez emergir o que sentíamos em relação à nossa idade fisiológica e emocional. Você compartilhou o que sentia com a sua: “O primeiro dia que eu disse, 90! Caralho! Já estou morto? Acho que não! Tenho dois livros sendo escritos! Alguma coisa estou fazendo. Porra!” Logo depois o grupo brincou sobre o medo de pular de paraglider (uma cena que falamos anteriormente) e você finalizou encontro dizendo: “O psicodrama é isso, o psicodrama sou eu… sou eu e você , você, você e você. Como Psicodrama você vai ousar sem medo, o máximo que pode acontecer é que os outros não estejam prontos para isso, mas senão… Viva a Vida!” Viva Vida foi a saudação final de todos nesse encontro maravilhoso. Só não sabíamos que seria o último.
Oi, querido mestre, que tantas andanças percorremos. Entre tantas aprendizagens, apreendi que não há caminho… que o caminho se faz caminhando. A sua sabedoria ao colher do Antonio Machado o trecho dedicado ao viajante*, iluminou meus passos, minhas pegadas que foram deixando seus efêmeros rastros para trás.
Sim, como você bem disse, sou um terapeuta selvagem. Sou aquele que segue pelas linhas paralelas que sempre se encontram. Sou aquele que se atreve a “transdiciplinarmente”, aproximar processos terapêuticos, pessoas e narrativas gerativas.
Me lembro, em 1993, do encontro com a Zerka Moreno no Brasil, em que você me pediu para digitalizar uma fita de videocassete original com uma sessão do Moreno. Me senti lisonjeado e ao mesmo tempo preocupado com aquela responsabilidade. A Zerka me tranquilizou, linda que era. Depois, em 2006, ela colaborou num trabalho que apresentei com a Érica Magacho no Congresso. E em 2008 ela topou aparecer virtualmente no Congresso de Recife, acredito que foi uma das primeiras transmissões de palestras virtuais no Psicodrama. Nesse 2008, em seu apartamento em Buenos Aires, você me pediu para ajudar a pessoa que estava presidindo esse Congresso. O Congresso ia ser cancelado devido a muitos problemas, fui a Recife e desenhei uma possibilidade. Por sorte, a nossa querida Marlene era quem presidia a Febrap e confiou que conseguiríamos virar o jogo. E viramos! Foi nesse Congresso que o termo “Psicodrama Virtual” apareceu oficialmente. Pela primeira vez. Aliais foi em 2006, que esse terapeuta selvagem (eu), criado por você, comecei a estudar as possibilidades do Psicodrama Virtual, apesar de todos me verem como um louco, como um herege, você sempre me incentivou com muita alegria e interesse. Me dizia que o Moreno adoraria participar dessa empreitada. A faísca para essa minha busca, além da minha paixão pela tecnologia da informação, foi o seu relato sobre um atendimento por telefone que você realizou com uma paciente que mudara de país. Você demonstrou que os elementos da técnica psicodramática estavam lá. Foi lindo! Não conseguia parar de pensar nisso. Ao mesmo tempo, tinha acabado de fazer um experimento para o projeto “Processando o Processamento” em que eu e a Érica Magacho havíamos gravado em vídeo uma sessão (2 cameras) e escolhemos apenas 1 minuto para processar e tirar tudo aquilo que estava no visível e invisível (palavras, gestos, tons, emoções, etimologia das palavras, silêncios e muito mais objetos) daquele minuto. Tinha tanta coisa, que em determinado momento, resolvemos parar onde já tínhamos levantado muita coisa. Isso nos deu a sensação das infinitas possibilidades dentro de um único momento. Aquilo me mobilizava para o uso de tecnologia e um redesenho para as possibilidades de uma década do uso da internet. Quando em 2009 comecei a fazer psicodrama virtual com um grupo de psicodramatistas da lista do IAGP de Roma, você se interessou tanto que mais tarde, em 2011, tentamos juntos, a convencer o grupo autodirigido a estudar isso. Não rolou! Precisou aparecer uma pandemia para que os terapeutas começassem a aceitar a possibilidade de mais uma modalidade do psicodrama. O psicodrama virtual! Ainda no estado da arte, porém não mais achando que precisam internar seus percursores num hospício. Acredito que o Moreno, deve ter se sentido assim muitas vezes. Se não fosse a Zerka, quem sabe o que teria sido dele. Queria mencionar a coragem do IDH (RS), principalmente na pessoa da Marta, por topar realizar o Congresso em 2020 no formato virtual. Essa decisão foi porque diante do que estávamos vivendo, seria uma questão de sobrevivência mergulhar nas possibilidades virtuais. Esse 22º Congresso Brasileiro de Psicodrama foi um marco para o Psicodrama no Brasil. A partir dele, tudo mudou! E você esteve presente, virtualmente, comigo em 2020 e no de 2022 também. Alegrias e Sabedorias que você compartilhou! Marcia Karp, também esteve com a gente! Foi uma alegria tão grande entrevistar a querida Marcia para o documentário da FEBRAP dos 100 anos do Psicodrama. Ela entrou dizendo para mim e o Francisco de que estava muito mal e não poderia dar a entrevista. Foi falando do que aconteceu (não colocamos no vídeo) e aos poucos foi se entregando à aquele encontro. Saímos tão impactados que nem sei como o Francisco teve tamanha habilidade de selecionar aquelas perolas que aparecem no documentário. Amo a Marcia!
Por fim, um assunto vital que comecei a falar com você no ano passado, foi o da Inteligência Artificial aplicada aos processos terapêuticos. A falta de compreensão do que isso significa e do que ainda vai significar é assustador. Me lembra o que o psicodrama virtual passou nos últimos 20 anos. Só que agora será muito mais rápido.
Pois é… como dizia uma sábia frase do Arthur Schopenhauer. “Toda verdade passa por três estágios: Primeiro é ridicularizada, segundo é rejeitada com violência e terceiro é aceita como óbvia e evidente.”
Querido Mestre, tá difícil explicar que apesar do nome, a inteligência artificial ainda não é inteligente. Ela é excepcionalmente incrível e produz resultados surpreendentes, mas acreditar que é inteligente desvia o entendimento do que ela possibilita. Uma calculadora faz contas extraordinárias e nem por isso acreditamos que ela tem inteligência. O mesmo para o seu smartphone, que apesar do nome, não é inteligente. Outra dificuldade é explicar que se trata de um agente e não de uma ferramenta. Essa diferença, que parece sutil, facilita o entendimento do seu uso. Dizer que a máquina não consegue atender alguém necessitando de um apoio terapêutico é uma miopia de quase cegueira e dizer que a maquina substitui um terapeuta humano é outra. Essa semana o Conselho Federal de Psicologia, fez três postagens com mensagens sobre a IA, que mostram o quanto estão desinformados e desinformando. Numa das telas diziam que estavam dedicados a refletir sobre os desafios e possibilidades dessa tecnologia (e?) sendo que numa outra dava alguma esperança porque dizia: “se interessa pelo tema? Acesse o site e saiba mais”. Entrei no site e… nada! Tem terapeutas que estão perdidos quanto a esse importante dado de realidade. Nem sabem das dezenas de aplicativos, como o Youper, focados em terapia. É urgente um letramento sobre os agentes de IA e suas possibilidades para o apoio do “nosso” Psicodrama. Não é, Mestre? Hay que tecnologizar sin perder jamás la ternura.
Ao meu Mestre, Dalmiro Bustos, uma conversa de ternura, amor e luz!
*
“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.”
Antonio Machado
“Caminhante, suas pegadas são
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
caminho se faz caminhando.
Caminhar faz o caminho,
e olhando para trás,
você vê o caminho que nunca
será trilhado novamente.
Caminhante, não há caminho,
senão rastros no mar.”
Antonio Machado
